quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Obrigado



Hoje larguei o meu emprego. Loucura, eu sei, não precisa vir com sermões de novo, não precisa. Você vai me perguntar como eu pretendo me sustentar agora e a resposta é: não sei, não sei e não quero pensar nisso, não enquanto durarem os duzentos e trinta reais da minha conta. Duzentos e trinta reais todo mês, todo dia cinco, mas agora já era. Nunca pensei que minha liberdade valeria tão pouco, quase nada. Larguei o emprego que nem era emprego de verdade, era um estágio, uma tentativa mal sucedida de encontrar paz, a minha prisão.

Estou no metrô e sinto um sopro de alegria dentro de mim. Critico, em silêncio, todos os engravatados, prisioneiros de suas vidas, do trabalho, das convenções, dos ternos. Faço um discurso sem palavras, mostro a todos que eles morrem a cada dia, morrem e nem percebem, parece-me triste demais para gritar, não grito. Vejo mães carregando crianças que não amam, homens acordando cedo para fazer o que odeiam, vejo vidas escorrendo pelo ralo, cada gota de suor evaporando, virando chuva e todos pensando que chuva é benção, mas não é. Uma população obrigada a aceitar, obrigada a viver e nem um pouco agradecida por isso. Mas já não faço parte disso, saí, larguei, fugi de tudo e não quero volta.

Quando chegar em casa preciso arrumar as malas, com o meu dinheiro talvez eu consiga viajar um pouco, beber num bar da esquina e comprar bons livros. Quando chegar em casa vou ligar pros amigos, dar a boa notícia e talvez fazer uma festa. Já não preciso acordar cedo, enfrentar pessoas rasas, fingir sorrisos que não tenho, comprar coisas que não me servem. Agora que não tenho nenhuma obrigação, sou obrigado a ser feliz. 
(Thainá Carline)

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