quinta-feira, 22 de setembro de 2011

“Insônia infeliz e feliz”


[...]

Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da
noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas
do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo.
Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se
clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar.
O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo.

[...]


-Clarice Lispector

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